quarta-feira, 9 de abril de 2008

comentário ao comentário anónimo de 7 de março...

"Amiúde, vos tenho ouvido falar
de alguém que comete um delito
como se não fosse um de nós
mas um estrangeiro
e um intruso no vosso mundo.

Ora eu digo-vos
que assim como nem o santo
nem o justo
se podem elevar
acima do mais alto
que mora em cada um de vós,

também o malvado e o débil
não podem cair mais baixo
que o mais baixo
que mora em cada um de vós.

E assim como nem uma só folha
se torna amarela
sem o silencioso consentimento
de toda a árvore.

Assim o malfeitor
não pode fazer mal
sem o oculto assentimento
de todos vós.

Como em procissão
caminhais juntos para o vosso eu-divino.

Vós sois o caminho
e sois os caminhantes.

E quando um de vós tropeça e cai,
fá-lo para precaver
os que vêm atrás dele
como advertência
contra a pedra do tropeço.

Sim;
ele cai por aqueles que vão adiante,
e que embora mais ágeis
e de pé seguro,
não afastaram a pedra do tropeço.

E se um de vós quiser castigar
em nome da rectidão
e descarregar o machado
contra a árvore do mal,
olhe também as suas raízes.

E, por certo,
encontrará as raízes do bem e do mal,
do frutuoso e do estéril,
entrelaçadas
no coração silencioso da terra.

E vós, juízes,
que quereis ser justos:

Que sentença pronunciareis
contra aquele
que, embora sendo honesto
segundo a carne,
é ladrão, segundo o espírito?

Que pena aplicareis
àquele que assassina segundo a carne
e é ele próprio
assassinado em espírito?

E como julgareis,
aquele que nas suas acções
é um impostor e um tirano,

Mas é também
ofendido e ultrajado?

E como processareis aqueles
cujos remorsos são já maiores
que os seus delitos?"

Kahlil Gibran