"Amiúde, vos tenho ouvido falar
de alguém que comete um delito
como se não fosse um de nós
mas um estrangeiro
e um intruso no vosso mundo.
Ora eu digo-vos
que assim como nem o santo
nem o justo
se podem elevar
acima do mais alto
que mora em cada um de vós,
também o malvado e o débil
não podem cair mais baixo
que o mais baixo
que mora em cada um de vós.
E assim como nem uma só folha
se torna amarela
sem o silencioso consentimento
de toda a árvore.
Assim o malfeitor
não pode fazer mal
sem o oculto assentimento
de todos vós.
Como em procissão
caminhais juntos para o vosso eu-divino.
Vós sois o caminho
e sois os caminhantes.
E quando um de vós tropeça e cai,
fá-lo para precaver
os que vêm atrás dele
como advertência
contra a pedra do tropeço.
Sim;
ele cai por aqueles que vão adiante,
e que embora mais ágeis
e de pé seguro,
não afastaram a pedra do tropeço.
E se um de vós quiser castigar
em nome da rectidão
e descarregar o machado
contra a árvore do mal,
olhe também as suas raízes.
E, por certo,
encontrará as raízes do bem e do mal,
do frutuoso e do estéril,
entrelaçadas
no coração silencioso da terra.
E vós, juízes,
que quereis ser justos:
Que sentença pronunciareis
contra aquele
que, embora sendo honesto
segundo a carne,
é ladrão, segundo o espírito?
Que pena aplicareis
àquele que assassina segundo a carne
e é ele próprio
assassinado em espírito?
E como julgareis,
aquele que nas suas acções
é um impostor e um tirano,
Mas é também
ofendido e ultrajado?
E como processareis aqueles
cujos remorsos são já maiores
que os seus delitos?"
Kahlil Gibran
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário